O engenheiro químico Guilherme Silva, CEO da Peróxidos do Brasil: “Optei pela Unicamp porque queria estudar em uma instituição que oferecesse ensino de qualidade”

Ao longo dos últimos 50 anos, o curso de Engenharia Química da Unicamp tem se dedicado à formação de profissionais altamente qualificados em uma área estratégica para o Brasil. Os cerca de 3.000 egressos da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) estão espalhados pelo país e o mundo ocupando posições – muitas delas de destaque – na academia, na indústria ou como gestores de seus próprios empreendimentos. Em comum, apresentam um apreço pela instituição onde estudaram e o compromisso de aplicar, da melhor forma possível, os conhecimentos adquiridos inicialmente nos cursos de graduação e pós-graduação e posteriormente ampliados com o desenvolvimento de suas carreiras. Um desses ex-alunos é Guilherme Farias da Silva, integrante da turma de 1996. Atualmente, o engenheiro químico é o CEO da Peróxidos do Brasil, uma uma joint venture entre o Grupo Solvay, ao qual a Rhodia está vinculada, e a Produtos Químicos Makay (PQM), empresa brasileira.
Como explica Guilherme Silva, a Peróxidos do Brasil dedica-se à fabricação de peróxido de hidrogênio, que tem ampla aplicação no mercado – da agricultura ao setor têxtil, passando pela metalurgia e a desinfecção de alimentos e bebidas. Sua capacidade de produção é de aproximadamente 300 mil toneladas anuais, distribuídas em suas três unidades industriais. No Brasil, operam a planta matriz em Curitiba (PR) e uma fábrica em Imperatriz (MA). A terceira unidade está instalada no Chile e destaca-se como a única planta de produção de peróxido de hidrogênio da Costa do Pacífico. O executivo reconhece que o desenvolvimento exitoso da sua carreira, que inclui passagens por outras posições importantes no setor industrial, deve-se em boa medida à sólida formação proporcionada pela FEQ-Unicamp.
Natural de Carmo do Rio Claro, município mineiro que soma 20 mil habitantes e repousa às margens da Represa de Furnas, Guilherme Silva conta que decidiu cursar Engenharia Química porque queria desempenhar uma atividade profissional com forte base em química, física e matemática, suas disciplinas prediletas. “Optei pela Unicamp porque queria estudar em uma instituição que oferecesse ensino de qualidade. Na época, consultei os rankings nacionais disponíveis, e a Universidade sempre aparecia em primeiro lugar”. A chegada a Campinas, diz o engenheiro químico, foi impactante. A diferença em relação à cidade natal era enorme. “Um dos aspectos que me ajudaram na adaptação foi a convivência com os colegas, a maioria deles também de outras cidades. Isso criou um forte laço de amizade, que eu mantenho até hoje. O fato de ter um familiar morando em Campinas também foi importante nesse início”, acrescenta.
Outro ponto que marcou significativamente as primeiras semanas de aula, de acordo com Guilherme Silva, foi a convivência com professores e pesquisadores.
“De repente, você estava assistindo a uma aula ministrada por alguém que você admirava e que tinha uma grande reputação acadêmica tanto no Brasil quanto no exterior. Em alguns momentos, eu perguntava a mim mesmo: ‘isto está de fato acontecendo?’”. O agora executivo revela que segue nutrindo um grande respeito pela FEQ e pela Unicamp. “É um respeito genuíno pela excelência acadêmica alcançada pela Universidade, no seu aspecto mais amplo”.
Voltando à fase da graduação, ele também se recorda das diversas oportunidades colocadas à disposição dos estudantes pela Unicamp. “Nós podíamos optar por fazer iniciação científica e curso de línguas, para citar dois exemplos. Tudo isso em um ambiente intelectual estimulante, visto que as turmas geralmente eram formadas pelos melhores alunos oriundos do ensino médio. Conviver com pessoas inteligentes, não apenas no aspecto cognitivo, era extremamente prazeroso”.
Questionado sobre qual é o perfil ideal do engenheiro químico, segundo as necessidades atuais do mercado, Guilherme Silva salienta que as características desejáveis de um bom profissional são diferentes das exigidas há 25 anos, quando ingressou na indústria. “Quem está ingressando no mercado de trabalho precisa reunir alguns predicados. O jovem de hoje tem algumas facilidades porque cresceu na era digital. Ele vive diante do computador e do smartphone. Entretanto, ele precisa mesclar essa habilidade, que é importante e que acelera o desenvolvimento das tarefas e aumenta a produtividade, com os fundamentos da profissão. Dominar conhecimentos relativos às áreas da termodinâmica, cálculo, fenômenos físico-químicos e fenômeno de transporte é fundamental. Além disso, também é importante que o jovem profissional possua algumas características comportamentais, como a proatividade. Os engenheiros químicos são treinados para resolver problemas. É interessante observar como uma pessoa supera uma dificuldade. Essa capacidade pode ser usada eventualmente em diferentes situações, não somente na produção industrial, mas também nas áreas administrativa, financeira e de recursos humanos”, afirma.
Guilherme Silva é um entusiasta da cooperação entre a academia e o setor produtivo. De acordo com ele, essa relação tem potencial para a formulação de projetos que estabeleçam de fato uma situação de ganha-ganha. “Penso que a universidade precisa desse tipo de parceria para se oxigenar. É estimulante buscar soluções para os problemas reais da indústria. A empresa, por sua vez, tem o respaldo de que as pesquisas em torno das suas ‘dores’ estão sendo conduzidas de forma criteriosa e com base em avançados métodos científicos, sob a orientação de especialistas renomados. Na minha atual posição, não tenho tido tantas oportunidades de promover essa aproximação com a academia, mas essa questão está sempre em perspectiva, principalmente em relação à Unicamp, instituição à qual continuo ligado”.
Indagado sobre os desafios e oportunidades relacionadas à Engenharia Química, o executivo tem resposta rápida. “Vou repetir o que eu disse durante uma mesa-redonda da qual participei na Unicamp, dentro das atividades de comemoração dos 50 anos da FEQ. Uma das perguntas formuladas na ocasião foi se a Engenharia Química tem futuro. Respondi que não tinha a menor dúvida de que a resposta era ‘sim’. O futuro da humanidade passa pela Engenharia Química. Tudo que envolve transformação exige a participação de um engenheiro químico. O mundo em geral – e o Brasil em particular – tem grandes desafios pela frente, que passarão a ser oportunidades assim que forem superados. Um deles é a transição energética. A biomassa é uma fonte renovável importante, e o Brasil é rico nesse tipo de matéria orgânica com potencial para gerar energia e novos materiais. Qual é o problema a ser resolvido? É tornar factível a implementação de tecnologias renováveis que sejam competitivas economicamente. Acredito que um caminho para buscar essa solução esteja na cooperação entre academia e indústria, como mencionei anteriormente. FEQ tem larga experiência nisso e pode trazer contribuições importantes”.
Esse alinhamento, adverte Guilherme Silva, precisa ser completado com a adoção de políticas públicas estratégicas. Na visão dele, o Brasil não pode mais se valer de projetos de governo, que são mudados a cada troca de poder. Ele defende a formulação de programas de Estado, que sejam de longo prazo e que atendam objetivamente as demandas do país e de sua população. “Se isso for contornado, repito, o desafio se torna oportunidade. Nenhum outro país reúne as características apresentadas pelo Brasil, como grande extensão territorial, clima favorável, enorme disponibilidade de biomassa e sólida capacidade científica. Se as condições forem dadas, o Brasil tem capacidade para liderar a transição energética no mundo”, considera.
Instado a enviar uma mensagem aos aspirantes a engenheiros químicos que fizeram a primeira fase do vestibular da Unicamp no final de outubro, Guilherme Silva responde com uma expressão comum aos jovens: “Vão fundo!”. E completou: “Aproveitem de forma genuína essa fase, que será única na vida de vocês. Usufruam das atividades didático-pedagógicas, das atividades extracurriculares e principalmente do convívio com a comunidade universitária. É bem provável que vocês encontrem mais oportunidades do que serão capazes de abraçar. Mas é importante ter claro que a vida universitária tem suas dificuldades, nem tudo é glamour. É preciso amassar muito barro. Dito isso, deixo um grande incentivo para que optem por estudar na FEQ-Unicamp. É uma escola de qualidade, que forma excelentes profissionais”, pontua.
