O professor Rubens Maciel Filho, que é docente da FEQ desde 1983: unidade tem um passado vigoroso e futuro promissor

O salto de qualidade e de produtividade das pesquisas desenvolvidas pela Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp, empreendido ao longo dos últimos 50 anos, reflete em larga medida a capacidade que a unidade em particular e a Universidade em geral tiveram de fazer boas escolhas e de manterem-se atentas às demandas da sociedade e da indústria brasileira nesse período. Nascida como um departamento da então Faculdade de Engenharia de Campinas, que ocupava espaços improvisados e se esforçava para montar os primeiros laboratórios, a FEQ consolidou-se como uma referência no país quando o assunto é transformar ciência e tecnologia em produtos e processos, que por sua vez geram trabalho, renda e bem-estar aos brasileiros.
Um dos artífices dessa evolução, que obviamente contou com a contribuição do conjunto da comunidade da Faculdade, é o professor Rubens Maciel Filho, que ocupou diversas funções na unidade, inclusive a de diretor. Formado engenheiro químico pela Universidade Federal de São Carlos em 1981, ele iniciou a carreira profissional na indústria, mas admite que à época já flertava com a academia. O primeiro contato com a Unicamp ocorreu em 1983, quando decidiu fazer o mestrado. “No final daquele ano, foi aberto um concurso para professor da FEQ. Na época, ainda não se exigia o doutorado para o ingresso. Eu prestei o concurso e fui aprovado em primeiro lugar”, conta.
Sobre as escolhas feitas pela Universidade mencionadas no início deste texto, o professor Maciel destaca uma, que classifica como de grande importância. “Naquela época, a Unicamp lançou o ‘Projeto Qualidade’, cujo objetivo era estimular seus doentes a fazer o doutorado. A meta era que todo o corpo de professores obtivesse essa titulação. Felizmente, fui um dos beneficiados por essa iniciativa e tive a oportunidade de fazer meu doutoramento na Inglaterra [Universidade de Leeds]. Retornei em 1989 e no ano seguinte assumi minhas atividades nas áreas de ensino, pesquisa e extensão. Na sequência, fui chefe de departamento, coordenador de graduação e diretor. Também tive a oportunidade de ser pró-reitor de Extensão na gestão do reitor Brito [Carlos Henrique de Brito Cruz]”, elenca.
O docente se recorda que nos seus primeiros anos de FEQ a infraestrutura de pesquisa ainda era relativamente acanhada, mas nada muito diferente do que era encontrado em outras faculdades brasileiras. A grande discrepância era em relação aos países desenvolvidos. “A infraestrutura disponível na FEQ era adequada àquele momento, visto que ainda não tínhamos demanda suficiente. Afinal, estávamos em processo de qualificação do corpo docente”, explica. Quatro ou cinco anos depois, porém, a situação começou a mudar. “Com muito trabalho, nós conseguimos reduzir essa diferença em várias áreas. Atualmente, eu diria que estamos em pé de igualdade com o que é feito lá fora. Temos recursos humanos e laboratórios que nos permitem fazer ciência da melhor qualidade”, acrescenta o professor Maciel.
As dificuldades iniciais, admite o docente, tiveram um importante caráter pedagógico. Foi a partir delas, por assim dizer, que ele aprendeu a buscar financiamentos e parcerias que possibilitaram a instalação de ambientes de pesquisa da maior relevância para a FEQ. O professor Maciel liderou a instalação de diversos laboratórios, entre eles o Lopca [Laboratório de Otimização, Projeto e Controle Avançado] e o Valpet [Laboratório de Valoração de Petróleos], para ficar em dois exemplos. Um avanço fundamental em relação às pesquisas, segundo ele, foi o investimento em modelagem matemática e simulação de processos. “Adquirimos computadores e softwares que nos permitiram discriminar, de modo mais rápido e preciso, as possíveis soluções para os problemas com os quais estávamos lidando”.
Aqui, o termo “escolha” se impõe mais uma vez. O professor Maciel decidiu optar por investigar saídas para questões brasileiras, que envolvem desde temas como energias renováveis até novos materiais, passando por próteses voltadas para pessoas vítimas de graves acidentes. O docente calcula que já tenha depositado perto de 50 patentes ao longo da carreira, sendo que várias delas foram licenciadas. “Nesse sentido, vale citar a importância do diálogo que a FEQ construiu e continua construindo com o setor produtivo. Essa cooperação é de extrema importância. Ela nos mantém atualizados sobre as necessidades da indústria, enquanto esta pode se valer dos conhecimentos gerados pela Faculdade para superar seus desafios. É uma relação de ganha-ganha, que traz reflexos importantes para a formação de nossos estudantes, que analisam questões reais e, também por isso, chegam muito bem preparados ao mercado de trabalho”, considera.
Para dar contornos mais concretos ao entendimento do professor Maciel, convém recorrer aos números. Pela contabilidade da FEQ, cerca de 2.000 profissionais se formaram em seus programas de pós-graduação (mestrado e doutorado) até o momento. Anualmente, a unidade oferece 60 vagas anuais nesses cursos. É esse conjunto de engenheiros químicos que podem contribuir para que o Brasil promova, na condição de protagonista, descobertas científicas que tornarão o país e o mundo mais sustentáveis sob o ponto de vista produtivo, econômico, social e ambiental. Um dos temas no qual o Brasil tem condições de assumir a liderança das pesquisas é o relacionado às energias renováveis, que encabeça a pauta da comunidade internacional.
De acordo com o professor Maciel, o país reúne atributos que o tornam indicado para estar à frente desse desafio, tais como matriz energética majoritariamente renovável, pesquisadores de alto nível e uma consistente estrutura científica. “Nosso programa do etanol é o mais bem-sucedido em alta escala do mundo. Temos infraestrutura e pessoal qualificado. Além disso, temos abundância de matéria-prima e o pragmatismo do uso de fontes de energia renovável. Temos praticamente tudo. O que talvez nos falte é um pouco mais de coragem, de visão e de determinação política. Nós podemos ser grandes produtores de combustíveis e fármacos. Estou convencido de que a FEQ pode contribuir para atingirmos essa meta”.
E já que o docente fez menção ao futuro, a indagação inescapável é sobre como ele imagina o desenvolvimento da Faculdade ao longo dos próximos 50 anos. “Vejo o futuro da FEQ com muito otimismo. Sempre trabalhamos sustentados pelo tripé ensino, pesquisa e extensão. Atuamos nessas três dimensões sempre de forma exitosa, formando pessoas, gerando conhecimento novo e desenvolvendo produtos e processos que contribuem para o progresso do Brasil e o bem-estar da sociedade. Estamos em linha com as necessidades do país. A Unicamp desenvolveu um cultura própria, dando às faculdades e institutos autonomia financeira, administrativa e de ensino. Isso impulsionou nossas atividades. Também criou a Agência de Inovação, para facilitar a transformação da ciência em tecnologia, a tecnologia em inovação e a inovação em progresso. Isso tudo está no DNA da FEQ e a unidade vai seguir cumprindo sua missão”, antevê o professor Maciel.
Para aqueles que intencionam fazer o curso de Engenharia Química na Universidade, o docente reserva palavras de estímulo. “Venham com fome e sede de conhecimento. Sigam aprendendo e aprendam a aprender. Com conhecimento, vocês se desenvolvem e têm visões interessantes de onde podem atuar, sempre de modo competente e assertivo. Vale lembrar que a junção de conhecimentos de várias áreas é importante. Queremos formar pessoas preparadas, com conhecimento sólido. É importante ter uma base muito forte. Ter ânsia de aprender. Nós podemos ser vetores e traçarmos nossa linha de avanço. Não precisamos seguir necessariamente o caminho dos outros. Podemos ser pioneiros”, enfatiza.