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Entrevista Prof. Dr. Wagner dos Santos Oliveira

Professor Aposentado e Colaborador da FEQ

Os 50 anos do curso de Engenharia Química
pelo olhar de um de seus pioneiros

 

Primeiro docente contratado, o professor Wagner dos Santos Oliveira fala sobre a excelência do ensino de graduação oferecido desde os tempos da Faculdade de Engenharia de Campinas, unidade que antecedeu a Faculdade de Engenharia Química

Para o professor Wagner dos Santos, a FEQ ainda tem janelas de oportunidade para avançar, como nas pesquisas relacionadas ao desenvolvimento de energias alternativas

 

Ao completar 50 anos de atividades, o curso de Engenharia Química da Unicamp oferece muitos motivos para celebração, tanto por parte da sua comunidade interna, quanto por parte da Universidade em geral. Nesse período, cerca de 3.000 estudantes foram graduados pela Faculdade de Engenharia Química (FEQ), instituída oficialmente em 1990. Anteriormente, o curso era vinculado à Faculdade de Engenharia de Campinas, hoje extinta. A busca contínua ao longo dessas cinco décadas tem sido pela formação de recursos humanos altamente qualificados para atuar especialmente no setor produtivo, contribuindo assim para o desenvolvimento do Brasil. Essa trajetória exitosa é resultado de uma construção coletiva, que enfrentou muitos desafios principalmente nos anos iniciais, marcados pela falta de estrutura, mas também pelo empenho de um grupo de idealistas, como lembra o professor Wagner dos Santos Oliveira, primeiro docente contratado.

Recorrer à memória do professor Wagner Oliveira para resgatar a história do curso de Engenharia Química da Unicamp equivale a assistir a um documentário. Pioneiro, ele oferece elementos ricos em detalhes, que tornam a narrativa ainda mais atraente. Um exemplo é o episódio que culminou com a sua contratação pela Universidade. Depois de concluir os estudos em Portugal, ele retornou ao Brasil e ocupou posições importantes na indústria. No momento em que analisava a oferta de um cargo com alcance internacional, cruzou ocasionalmente com o professor António Carvalho de Sales Luís, convidado pelo reitor Zeferino Vaz para estruturar o curso. “Ocorre que o professor Sales Luís havia sido meu professor no Instituto Superior Técnico de Lisboa (IST) nas disciplinas de Física e Termodinâmica. Na conversa, ele me perguntou que notas havia obtido e trocamos algumas impressões. Na sequência, o professor Sales Luís me convidou para ajudá-lo. O que eu fiz? Telefonei para a multinacional e recusei o emprego”, conta.

O dado curioso é que a contratação do professor Wagner Oliveira foi formalizada antes da do próprio Sales Luís por causa de questões burocráticas. Em seguida, outros nomes foram gradativamente incorporados à equipe de docentes. O começo do trabalho, assinala o pioneiro da FEQ, foi árduo. Praticamente não havia estrutura ou recursos disponíveis. Inicialmente, foi criado o Departamento de Engenharia Química, ligado, como mencionado, à Faculdade de Engenharia de Campinas. Esta, por sua vez, abrigava também a Engenharia Mecânica e a Engenharia Elétrica. “Nós ocupávamos um mesmo prédio. À época, as instalações eram acanhadas e improvisadas. Não tínhamos recursos disponíveis para grandes ações iniciais. A primeira verba que recebemos foi destinada apenas à compra de material de consumo”, relata.

 

A despeito das adversidades do momento, a dupla de docentes se dedicou ao que o professor Wagner Oliveira classifica como uma missão “ousada”: a formulação de um documento intitulado “Proposta para o Plano Curricular do Curso de Engenharia Química”. A estrutura sugerida, afirma, era inovadora em âmbito mundial. Propunha, por exemplo, que os alunos de graduação escolhessem sua carreira entre “Engenheiros Acadêmicos/Pesquisadores”, com forte componente científico, e “Engenheiros de Projetos/Processos”, com vertente de formação mais tecnológica. Sugeria, ainda, que algumas disciplinas de Físico-Química fossem ministradas de modo a romper com a fronteira entre saber e prática. Ademais, o curso não teria disciplinas relacionadas ao tema “Fenômeno de Transporte”, como no resto do mundo. Estas seriam substituídas por conhecimentos embasados na Termodinâmica dos Processos Irreversíveis. Ao final, a proposta não foi aprovada, provavelmente por ser demasiadamente arrojada, como admite, com um sorriso um tanto irônico, o professor Wagner Oliveira.

 

Decorridos tantos anos desse esforço inicial, o docente afirma ter orgulho do caminho percorrido pelo curso de Engenharia Química da Unicamp. De acordo com ele, o esforço empreendido nos últimos 50 anos tem sido para formar profissionais com alta qualificação técnica, mas que tenham também uma forte base cultural e humanística. Atualmente, observa o pioneiro da FEQ, egressos da Faculdade compõem o quadro funcional de importantes indústrias em níveis nacional e global, sendo que vários deles ocupam posições de comando nessas companhias. Essa ampla preparação dos jovens profissionais, assinale-se, conta com uma contribuição especial do professor Wagner Oliveira, um entusiasta do diálogo entre diferentes áreas de saber, como estratégia para enriquecer o conhecimento.

 

Em suas aulas, por exemplo, ele derruba o muro que muitos constroem entre os campos das ciências exatas e humanas, para estimular o aprendizado dos estudantes. “Os alunos são os atores principais. O papel do professor é de conduzi-los adequadamente até o destino escolhido”, sentencia. A partir desse princípio, o professor Wagner Oliveira propôs – e ainda pratica – atividades nada convencionais para um curso de Engenharia Química, como interpretar trechos de contos. Um deles é a obra “Os Amantes”, de David Mourão-Ferreira. Outro é “Adeus”, escrito por Virgílio Ferreira. “O objetivo desse tipo de prática é despertar no estudante um elevado espírito crítico. As discussões em sala de aula após as leituras são sempre muito estimulantes”, diz.

 

Outra iniciativa do docente é a promoção de um concurso de fotografia que tem como tema a “Corrosão de Materiais”. Além de registrar em imagens peças e estruturas corroídas, os alunos descrevem a situação flagrada em uma folha de dados. “Eles trazem fotografias muito interessantes e originais. Muitos percorrem o campus atrás de uma imagem, que pode ser de uma escada de metal enferrujada”, exemplifica. Tais experiências, acrescenta o pioneiro da FEQ, tornam a convivência aluno-professor ainda mais prazerosa e profícua. “É preciso dizer que minha relação com os estudantes e os colegas docentes sempre foi excelente. Estamos todos voltados para o mesmo objetivo, que é garantir ensino de qualidade em Engenharia Química”.

 

Questionado se o perfil dos estudantes da carreira mudou muito desde a época da sua graduação, o professor Wagner Oliveira afirma que sim, observando que essa é uma ocorrência natural, dado que o próprio mundo se transformou completamente nas últimas décadas. “Somos frutos da sociedade. A relação saber-prática se altera de acordo com o contexto histórico”, pondera. Em relação aos temas de interesse da Engenharia Química, o docente entende que algumas mudanças não foram tão intensas. A questão do desenvolvimento de energias alternativas, tão discutida no momento, já era objeto de estudos na sua época de jovem pesquisador, que se especializou em questões relacionadas à energia nuclear. “Entendo que devemos nos ocupar fortemente de todos os temas relacionados à pesquisa e desenvolvimento que não sejam pequenos incrementos do que está sendo investigado pelos países avançados. O Brasil precisa dar um salto por cima e tomar a dianteira nessa corrida”, defende.

 

Convidado a analisar o atual estágio da FEQ, o professor Wagner Oliveira destaca que a unidade tornou-se referência no Brasil e para outros países no ensino e pesquisa em Engenharia Química. “Temos uma excelente estrutura, ótimos professores e alunos com grande potencial, vários deles brilhantes”. Entretanto, como uma personalidade acostumada a se impor desafios, o docente enxerga oportunidades para a unidade avançar. “Considero muito importante que a FEQ crie um Departamento de Engenharia Eletroquímica. É preciso dirigir estudos para o desenvolvimento de novos reatores eletroquímicos. É fundamental que pesquisemos novas energias alternativas, tais como a produção de energia elétrica a partir de pilhas a combustível, tendo como matéria-prima o etanol. Outra iniciativa importante é desenvolver trabalhos de Previsão Tecnológica, de modo a orientar nossas estratégias no curto, médio e longo prazos. Também defendo que a Faculdade tenha maior proximidade com a indústria, para transformarmos nossas pesquisas em produtos e processos que beneficiem a sociedade”, elenca.

 

Nunca é demais lembrar que essas recomendações partem de um docente que, a despeito de já ter se aposentado, continua dando aulas e orientando alunos na posição de professor colaborador. Um educador que ainda tem projetos que deseja executar, como a retomada dos encontros internacionais na área da pesquisa nuclear. No passado, o pioneiro da FEQ organizou três desses eventos na Unicamp, que reuniram centenas de interessados na discussão de temas voltados à aplicação desse conhecimento em diversas áreas, da medicina à agricultura. “Só espero ter saúde para isso”, manifesta. Com tantas experiências e realizações no currículo, uma pergunta é inescapável ao docente. Que conselho ele daria àqueles que desejam cursar Engenharia Química na Unicamp? “Em razão das comemorações dos 50 anos do curso, nós vamos receber a primeira turma para uma confraternização. Aos componentes desse grupo, quero dizer ‘sejam bem-vindos novamente’. Quanto aos que ainda vão ingressar na FEQ, eu digo o mesmo: ‘sejam muito bem-vindos’”.

 

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